Naquela tarde de inverno, dos quinze anos do jovem Sogno, houve pequena festa com bolo da mãe e presente na caixa grande que trouxera o pai. Naquela fria tarde de agosto, houve presença da avó, de uma prima mais velha, do irmão e do fiel companheiro Rex. Naquela tarde 13, o inocente Sogno deixou para trás as festinhas com os coleguinhas e os desenhos no caderno escolar; passou a pintar telas e criou seu desejo plástico, imaginou de tantas formas depois seu futuro, acreditou muitas dessas vezes nas certas linhas de chegada e ambicionou as portas de saída. Sogno foi o menino de apego à mãe, das limpezas junto com a gerdora, deixar a casa bem arrumdinha e o quarto sempre em ordem! Sogno foi antes o preferido pequenino de cabelos encaracolados do vovô, das conversas intermináveis de cotovelos postos sobre a pia da vózinha, das receitas de lanche com o tio mais maneiro e o alvo dos preconceitos, dos tortos conceitos, da falta de visão cheia de imaginção de gente que fazia coisas bem feias e escondidas...
Sogno foi ímpar durante tanto tempo, nasceu do 13, era o décimo terceiro neto e assim acabou sendo bem o do meio, irmão do meio, primo do meio, mas tantas vezes deixado de fora nas brincdeiras mais emocionantes. Ímpar também nas observações - pobre Sogno - tantas foram as vezes em que ouviu "fica quieto" ou "cala a boca", mas poxa gente era tudo verdade!!
Aos dez anos, Sogno foi viver no interior com a família, logo veio o escudeiro Rex - presente do tio mais legal, o mais maneiro. Naqueles anos de novo começo, as músicas no radinho da cozinha que ouvia a mãe, os bate pernas do pai atrás de emprego, as sopas da escola, os almejos atléticos do irmão, as visitas dos avós, do tio maneiro, e a grande descoberta nos livros que trazia da biblioteca, tudo convencia o garoto Sogno. Quando voltava nos fins de tarde junto com seu irmão, era sempre o Rex quem encontravam pelo caminho e já em casa, eram os pais que viam erguendo a própria casa. A casa teve o suor de todos, o cansaço e a ingenhosidade do pai, a batalha e sabedoria da mãe, a adolescência rebelde do irmão, a cabeça no mundo da lua de Sogno e a presença de Rex.
Os anos foram passando e o garoto aprendeu muitas coisas...
Sogno teve uma professora que lhe disse certa vez que a vida se consegue na rua, que ficar em casa de nada adiantava a quem deseja encontrar qualquer coisa. Sogno foi o garoto que brincava com as primas, batia cordas enquanto pulavam e cantavam os contos que rimavam, mais tarde não entendeu muitas vezes porque azul para os garotos e rosa para as garotas, foi ingênuo, inocente, eloquente, independente... Sogno gostou do xadrez, destreza para a vida. Sogno apreciou a amizade, tristezas em certas hora, mas a honra de ser leal, sempre leal!
Já mais tarde, fez primeira comunhão e crisma também na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, essa mesma da sábia Santa Inquisição, creu em Deus, depois no Diabo, acreditou nos anjos, desitiu dos demônios, deixou os dogmas; nem rezas, nem terços, nem santos livros, nem calças rasgadas, nem cruzes pra baixo, às vezes botas do exército, às vezes agnóstico e outras cego mesmo!
Mas o fato, é que Sogno fez as turmas, conheceu gentes, cigarro, "goró", lugares lindos e os becos, o lixo, os que vinham e o que vinha detro dele. Conheceu amor, ciúmes, coisas estranhas dentro da cabeça, dentro do peito, coisas absurdas dentro do coração e dentro das mãos, dentro da vida!
Sogno se tornou poliglota, aprendeu francês, desenvolveu as "Itálias" da infância, conheceu a língua dos piratas e se divertiu com o latim, foi viciado por livros, por cadernos, por música, apaixondo pelas tintas e bastões... Formou-se artísta dizem; viveu, cidades, estados, províncias e comeu países, bebeu idéias, culturas; foi aos cantos, aos internos e externos. Sogno nunca fora lindíssimo, mas fez loucuras com a cabeça de uma certa rapariga; nunca fora desapaixonado, mas partiu tantas vezes e fez partir.
Depois de tudo, ele já homem, manteve o jeito com os vizinhos do pais, com os pais e teve tantos outros jeitos por aí. Após Rex, vieram Laika, Bolinha, Lupe, Breu, Nena, Jolie e Pirata... Após os anos, veio a vez em que atravessou meio país para se despedir da avó, e que surpresa!! Encontrou ali o tio maneiro, também o avô - defensor dos seus cachinhos de Bebê e a prima um pouco mais velha - engraçadas lembranças dos primeiros tempos... Nunca se esquecerá da imagem sépia que guarda na memória, daquela mulher de dez filhos, nunca mais esquecerá do que lhe disse e das mãos já tão fracas que apontaram um "breve" tchau, como toques de pianista no ar, aliás, o piano que ela toda uma vida almejou, nunca teve!
Sogno não sabia, mas ali, se despediu de todos eles...
Naquela tarde de inverno, dia 13 de agosto, os quinze anos de Sogno foram marcados pelo abandono aos cadernos de desenho - passou a pintar telas, os livros passaram a dividir espaço com as folhas em branco onde Sogno compunha seus versos. Hoje, quase outros quinze anos depois, o ainda jovem Sogno aprendeu a lição da sua maior professora e seu amigo fiel - o Rex - que mesmo sem poder falar, ensinara naqueles anos de "tudo novo": Saia, vá pra rua, além dos muros e conheça o mundo, as pessoas. Vá, conheça a vida, corra ao encontro das coisas e tudo aquilo que você ama!
Depois de tudo o homem Sogno, concordou que a vida nunca é exatamente como esperamos e nem todos os seus desejos se realizaram, alguns sim, outros - ainda não!
"Um homem bateu
em minha porta e eu abri...
Senhores e Senhoras - ponham a mão no chão!
Senhores e Senhoras - pulem de um pé só!
Senhores e Senhoras - dêm uma rodadinha e
VÃO PARA O OLHO DA RUA!"